O jogo de Baseball

 

Os dias por esta terras estão ficando mais curtos. A noite chega mais rápido e frio e a garoa que se instalaram, são avisos que o fim do verão se aproxima aqui no hemisfério norte.

Oficialmente, o outono começa dia 23 de setembro, mas por aqui já se começam a ver as folhas verdes transformando-se em múltiplas facetas de vermelho e laranja, até atingirem um maravilhoso tom dourado para finalmente caírem antes da chegada do inverno.

Assim é que a semana passada por aqui, todos queriam aproveitar ao máximo os últimos dias do verão. E apesar de não ser um  programa que eu escolheria por livre e espontânea vontade, acabei indo ao SAFECO Field aqui em Seattle, convidado que fui para um jogo dos Mariners, o time de baseball aqui da cidade.

Confesso minha total ignorância sobre esse jogo. Apesar de todo meu interesse em esportes e das várias vezes que eu tentei entender como se joga baseball, fui vencido pelas 54 páginas de regras que regem este jogo, sem falar que dependendo da liga em que ele é praticado, as regras podem não ser as mesmas.

 

Mas depois de 3 horas no estádio, acabei por aprender alguma coisa. Não me pergunte por que, mas o jogo de Baseball tem nove tempos, chamados “innings”. E cada tempo se divide em dois meios tempos, “up & down”. No primeiro o time visitante ataca e no segundo meio tempo, se defende. Ao contrario da maioria dos esportes, aonde um time pode transformar uma defesa em um ataque, no baseball isso não acontece. Só conta ponto o time que ataca. Ou seja, não existe o conceito do contra-ataque. Já imaginaram uma partida de futebol com a seguinte regra: No primeiro tempo só podemos correr pra-frente. No segundo tempo só corremos pra trás…?

Acho que todos já devem ter visto no cinema cenas de um jogo de baseball. Um jogador atira uma bola e o adversário tenta rebater com um taco. Para o leigo, quem atira a bola deve estar atacando… Ledo  engano. Quem rebate é quem ataca e o objetivo é mandar a bola o mais longe possível e correr em volta de do quadrilátero demarcado no campo e chegar de volta ao ponto de partida antes que o time que lançou a bola recupere a pelota e a mande de volta para algum um dos homens que ficam nos vértices ou bases do quadrilátero. Se o time que ataca conseguir a proeza de correr uma volta completa no quadrilátero, então marca um ponto… Simples né?

Mas é muito difícil que um jogador que rebate consiga retornar ao ponto de partida em uma única corrida. Pode-se rebater e só se ter tempo de correr até a primeira base antes que bola chegue de volta até essa base. Daí ele tem que esperar uma nova rebatida para correr até a base seguinte. E assim sucessivamente até conseguir contornar o diamante, voltar à home base e marcar um ponto.

Mas e se a bola chegar à base antes do que o jogador que esta correndo? Nesse caso o rebatedor é eliminado da jogada e entra o próximo para tentar a sorte. Mas cuidado… Essas regras só valem se a bola rebatida quicar no chão antes que alguém do time que defende consiga agarrar a pelota. Se a bola for capturada no ar, antes de quicar, o time que ataca perde a jogada na hora.

Entenderam? Pois eu ainda não, apesar de ter assistido ao jogo na companhia de dois entendidos e fãs do baseball. Para eles, é tudo muito simples e óbvio… Quem sabe se eu assistir mais alguns jogos possa vir a entender suas nuances e sutilezas. Enquanto espero por um novo convite, me resta aprofundar meus conhecimentos do baseball lendo esta página com um resumo das regras do jogo.

O baseball é um jogo muito antigo. As primeiras regras oficiais foram publicadas em 1840 muito embora já houvessem partidas muito antes disso. Na primeira metade do século XX o baseball era o esporte mais popular nos EUA, e os Yankees, time de Nova York, dominaram por muitos anos o campeonato. Apesar de que hoje outros esportes dividem o interesse do público, o baseball ainda compete em termos de popularidade e fama com o basquete da NBA e o futebol americano da NFL.

Há outras coisas curiosas que fazem parte da tradição do baseball. Por ser um jogo muito longo, dura em torno de 3 horas, criou-se a tradição de que no sétimo tempo, o jogo deve parar por alguns minutos, para descanso do público. Isso permite a platéia ficar em pé e alongar-se. Esse intervalo tem até nome: “Seventh Strecht”. E a tradição manda que todos cantem. E assim tem sido feito por anos e anos e a musica cantada é sempre a mesma, “Take me out to the Ball Game” uma espécie de hino do baseball. Quem nos anos sessenta assistiu os desenhos animados que passavam na TV Record todo o fim de tarde, com certeza já ouviu essa musiqueta. Quem quiser ouvir ou relembrar, aqui está uma gravação feita em 1920, capturada em um fonógrafo de cilindro, invenção de Thomas Edison. Acho que deveríamos introduzir algo parecido no futebol ai no Brasil. Já pensaram como seria a seguinte cena?:

– 30 minutos do segundo tempo…, Palmeiras e Corinthians…, os jogadores param de correr e a torcida enlouquecida canta: Atirei o pau no gato to to, mas o gato to to, não morreu reu reu….! ou melhor cantam todos: – 90 milhões em ação, prá frente Brasil do meu coração…

Garanto que ia ser fantástico e inesquecível.

Enquanto assistia ao espetáculo e tratava de entender as regras do baseball, pensava cá entre meus botões quais as razões que fizeram este jogo ser tão popular por aqui. Devem ser as mesmas que fazem o futebol não ter a menor popularidade nestas terras. Acho que a minha amiga Claudia Costin, nossa ex-Secretária da Cultura em São Paulo, seria capaz de fazer uma análise antropológica mais profunda deste tema. Afinal esporte também é cultura…

No fim das contas, minha noite no estádio de baseball, até que foi divertida, com direito a curtir todas as tradições: Comer amendoim, cachorro quente com bata frita, tomar cerveja e cantar o “Take me out to the Ball Game”. E foi emocionante também. O time de Seattle, os Mariners, estava perdendo de Tampa por 7 x 1 ao final do sétimo tempo. Ai, numa recuperação fantástica, virou o jogo e ganhou por 8 x 7. O estádio explodiu em gritos e aplausos e Seattle foi dormir feliz e contente. Afinal, os dias estão ficando mais curtos e o fim do verão faz as coisas simples da vida ficarem mais gostosas.

 

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2 Responses to O jogo de Baseball

  1. Babi says:

    Lorenzo, eu sempre tive curiosidade de entender essas regras do baseball, par mim, incompreensíveis. Um amigo que viveu 20 anos em Seattle tentou me explicar várias vezes, mas eu desisti, e olha que não sou loura! Bem, pelo menos deve ter sido divertido ver os Mariners no seu campo. um abraçoBarbara

  2. Mario says:

    Já joguei beisebol no Brasil, treinando no estádio de Mie Nishi, em São Paulo; e percebi como esse esporte , nos seus arremessos com a bola, prorpociona ao jogador uma pontaria impressionante , ao ponto deles, com até a mais longa distância que há no campo, serem certeiros. Se há uma relação social, ou antropológica, possivelmente está relacionado com a hegemogia militar americana; pois, com certeza, a prática desse esporte, capacitaram os soldados americanos, nas duas Guerras Mundiais, a serem exímios lançadores de granadas de mão; uma arma simples, mas que fornece um poderoso suporte logístico nos combates. Algo semelhante com os esportes na Roma e Grécia antiga, como corridas de carros de combate, arremesso de dados, luta romana, e etc; esportes forjados das táticas e dos treinos militares daquela época.

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