Tunisia – A história se repete

Delenda Cartago Est! (Cartago deve ser destruída)

Esta era a frase com que Catão, o velho, senador da Republica em Roma, sempre terminava seus discursos no Fórum Romano (SPQR), lá por volta do ano 150AC.

Cartago, cidade às margens do Mediterrâneo, abrigou o único povo que conseguiu impor severas derrotas militares ao Império Romano e seu mais famoso general guerreiro, Aníbal, chegou as portas de Roma com um exercito de elefantes, após uma épica travessia dos Alpes e dos Pirineus. Se Aníbal, não tivesse evitado conquistar e destruir a cidade de Roma, a estória do mundo ocidental teria sido outra.

Cartago tinha uma posição estratégica ao norte da África e era ponto de passagem obrigatório para os mercadores de então. Cartago fazia face ao poderio romano e durante centenas de anos estes dois impérios lutaram pela hegemonia do Mediterrâneo. A influência de Cartago foi de tal importância no Mediterrâneo, que Barcelona na Espanha tem seu nome derivado de Amilcar Barca, pai de Anibal e que governou todo o sul da Espanha. Cartagena foi outra cidade espanhola também fundada por cartagineses na mesma época.

Roma, após centenas de anos lutando contra seu arquiinimigo, naquilo que ficou conhecido na história como as Guerras Púnicas finalmente sobrepujou Cartago e lá construiu, por sobre as ruínas da capital conquistada, uma das mais esplendorosas cidades de todo o império. Os Romanos, além de combativos guerreiros, eram excelentes engenheiros e não faltaram templos suntuosos, saunas coletivas, fantásticos jardins, ruas pavimentadas por mosaicos e sistemas de coleta de água pluvial e esgoto. Alimentando todas essa riqueza estava um dos melhores e mais movimentados portos da história antiga.

Com a queda do império romano, Cartago tornou-se uma vila esquecida e suas construções e templos viraram ruínas. Seguiram-se sucessivas conquistas por parte dos Vândalos, dos Bizantinos, dos Normandos da Sicília até a região ser dominada pela expansão dos povos Árabes. Apesar disso, as ruínas de Cartago ainda hoje desafiam o tempo e se mantêm como testemunho da história.

Cartago se localiza nas cercanias de Tunis, capital da Tunísia, onde estive há alguns dias atrás para acompanhar os projetos que estamos fazendo por lá. Durante essa visita, tive a grata oportunidade de me encontrar com diversas autoridades do país, inclusive com a Ministra das Tecnologias da Comunicação, e conversamos muito sobre as oportunidades de desenvolvimento que a tecnologia representa para aquele país. Como eu não falo árabe e o Inglês obviamente não é muito popular no mundo muçulmano, tive que desenferrujar o meu francês que estava adormecido há muito tempo. Incrível como a memória humana funciona, pois após muitos anos sem falar esse idioma, aos poucos as complexas conjugações verbais da língua de Voltaire me voltaram à tona.

A Tunísia atualmente é uma dos mais liberais países mulçumanos. Pelas ruas de Tunis, circulam ao mesmo tempo, árabes com trajes tradicionais e mulheres ocidentalizadas com roupa de grifes. Pela influência dos Franceses que governaram a região por muitos anos, cafés tipicamente parisienses abundam pela cidade com suas mesas invadindo as calçadas, enquanto a parte mais antiga da cidade, a Medina, sobrevive com seu grande e antiqüíssimo mercado e suas centenas de ruas estreitas e labirínticas. Neste lugar, repleto de cores, aromas, comidas e especiarias, roupas, jóias e artesanatos e um sem número de outras bugigangas, é aonde melhor se percebe a alma árabe da cidade. Por sua antiguidade e história, a Medina de Tunis faz parte do seleto grupo de locais que são considerados patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO.

Tunis é tipicamente uma cidade mediterrânea com milhares de sobrados brancos de dois andares espalhados por todos os seus bairros. Desta forma, as construções não impedem a visão dos Minaretes, que com seus potentes alto-falantes, chamam os fieis várias vezes ao dia para as obrigatórias rezas muçulmanas. Antenas parabólicas espalham-se aos milhares pelos telhados das casas e edifícios como se fosse uma epidemia incontrolável de gira-sóis brancos apontando para os céus e essa modernidade contrasta com os tradicionais detalhes da arquitetura árabe, presentes em portas, janelas e vitrais.

A Tunísia é atualmente uma republica Árabe em que convivem pacificamente lado a lado, o novo e as antigas tradições. Este pequeno país às margens do mediterrâneo hoje existe nas terras que antes abrigavam outros impérios. E tal como fizeram os Romanos, que ergueram seus templos sobre as pedras de uma Cartago destruída, para assim materializar seu domínio sobre os conquistados, a Tunísia de hoje repete a história: Construiu sobre aquelas mesmas colinas, a maior e mais luxuosa Mesquita do país. Desta vez é o Islã quem domina Cartago. E como creio piamente que a história se repete – e que a humanidade não aprende com os próprios erros -, sei que os séculos passarão e pergunto intrigado: Quem serão os próximos que mais uma vez irão gritar Delenda Cartago Est?

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One Response to Tunisia – A história se repete

  1. Hey the whole world! I’m new here and wanted to just say hi

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