Hanoi

Não foi sem emoção que fiquei sabendo do convite para fazer uma palestra no Vietnam. A razão da minha viagem seria para fazer uma apresentação para um grupo de oficiais do governo Vietnamita. Mas esta oportunidade que me chegou as mãos por motivo de trabalho, permitiu-me desfrutar nas horas vagas de momentos extraordinários.

Para a minha geração, que cresceu sob a sombra da guerra do Vietnam, esse país tem um significado transcendente ou até mesmo filosófico. Milhares de vidas sacrificadas a toa , toda uma geração marcada pela estupidez de uma guerra que modificou o mundo. Hippies, drogas, sexo e rock’n roll são os frutos diretos desse conflito.

E ali estava eu, a bordo de um gigantesco B-777 percorrendo a mesma rota que os B-52 faziam para lançar bombas sobre Hanói. Lá em baixo, passavam rápidos, a ex-Saigon, Da Nang, o Delta do Mecong e o Rio Vermelho, lugares sobre os quais tantas vezes eu havia lido nos jornais com as manchetes da guerra.

O pouso no aeroporto de Hanói revelou-me a primeira surpresa. Ao lado da pista, 17 hangares de alumínio guardavam cada um, um avião caça MIG 21 remanescente da guerra. Logo em seguida, ao passar pela Imigração, respirei fundo ao ser recebido por um oficial militar Vietnamita, vestindo o mesmo uniforme verde Vietcong, que foi tão satanizado nos filmes de Hollywood.

Olhando pela janela que dava para o pátio de estacionamento das aeronaves, não pude deixar pensar na ironia do destino. Aquela cidade que nunca fora conquistado pelos Boeing B-52 americanos durante a guerra, hoje estava completamente tomada por dezenas de outros Boeings. Aquilo que toneladas de bombas e 60.000 jovens soldados americanos mortos não conseguiram, o bom e velho capitalismo de Adam Smith conseguiu fazer sem dar um tiro se quer.

 

A minha experiência nesta visita ao Vietnam não foi menos do que fantástica.

Algo que é marcante em Hanói, e que toca fundo nas emoções, é visitar a famosa “Maison Centrale”, aonde os pilotos americanos capturados eram aprisionados e que foi por eles sarcasticamente apelidada de Hanói Hilton. Foi nessa prisão que o então Tenente Aviador John McCain, hoje senador e ex-candidato a presidente dos EUA, ficou preso e foi torturado durante seis anos, até ser libertado em 1973. Antes disso, essa prisão construída pelos Franceses durante a conquista da Indochina, já houvera sido palco de torturas incríveis. Conhecer Hanói Hilton foi para mim um exercício de catarse, depois de ter ouvido estórias horrendas do meu amigo MB, um ex-piloto de um helicóptero que ficou prisioneiro por quatro anos em Hanói Hilton. Por isso mesmo, fiz questão de ficar hospedado no outro Hanói Hilton, o hotel de verdade, e tirar estas fotos para deixar o fato documentado. MB, que mora no Brasil há vários anos, pediu-me para não identificá-lo e assim respeito sua vontade. (Para ler mais sobre a história de Hanói Hilton, clique aqui )

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Hanói como cidade, muito me lembrou o Rio de Janeiro dos anos cinqüenta: Calor úmido insuportável, ruas e avenidas arborizadas e casarões em arquitetura típica francesa do período Hausmann. A franco-influência por aqui é visível por todos os lados. Seja nos casarios coloniais, nas centenas de cafés que existem na cidade com mesas e cadeiras espalhadas pelas calçadas, nas belíssimas galerias artes, como também na culinária e que entre outras coisas fez do pão vietnamita um irmão gêmeo das "baguetes" parisienses.

A transformação pela que passa o Vietnam é fantástica. De pais comunista e com uma economia tipicamente rural baseada em tradições seculares, hoje a livre economia de mercado rapidamente transforma este país em uma sociedade industrial moderna. Mão de obra barata, porém de grande habilidade, aliados aos grandes incentivos que o governo proporciona, estão trazendo para o Vietnam fábricas sofisticadas e de alta tecnologia. Por isso, em Hanói, hoje convivem simbioticamente, grifes européias de alto luxo com camponeses que chegam diariamente  à cidade para vender nas ruas, os produtos de suas hortas. Legumes, peixes, porcos e aves, são trazidos diariamente a capital em bicicletas ou carregados pelas mulheres em tradicionais cestas de vime equilibradas em balanço sobre os ombros.

Estes produtos agrícolas são ofertados e vendidos por todas as calçadas, ao rés do chão, ao estilo de qualquer mercado medieval. Alias, o chão parece ser é o ponto central desta cultura aonde homens e mulheres trabalham todos em posição de cócoras em suas atividades diárias. Cozinha-se na rua, come-se na rua, trabalha-se na rua, sempre de cócoras ou sentados em pequenos bancos que não tem mais do que vinte centímetros de altura.

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Os ofícios também são executados nas calçadas. Milhares de pequenos fogões preparam comida 24 horas por dia, sapateiros, barbeiros, mecânicos e artesãos trabalham nas calçadas, enquanto que o costume local faz com que cada família viva no fundo da casa e utilize a frente para montar um pequeno negócio. Há milhares de pequenos negócios em Hanói.

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Hanoi A -49Mas todas esta balburdia secular é pouca se comparada ao caos do transito. Três milhões de motocicletas circulam por uma cidade de quatro milhões de habitantes. Não é raro ver-se famílias inteiras andando em apenas uma motocicleta. Estaciona-se em nas calçada e em cada uma delas existe um "oficial guardador de motos" que emite recibo autorizado pelo governo. Pedestres tem que cruzar as ruas entre centenas de motos que circulam por todas as direções. E entre tudo isso, bicicletas "rickshas" levam estrangeiros a conhecer os principias pontos turísticos da cidade.

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O Vietnamita é um povo afável. Recebe bem o estrangeiro, nunca se recusa a posar para uma foto e está sempre sorridente. As 5:30 da manhã, Hanói é cheia de vida. Parques lotados de gente de todas as idades fazendo ginástica, Thai-chi-chuan, jogando Badmington ou simplesmente meditando. É nessa hora do amanhecer que encontrei e fotografei os personagens mais interessantes da minha aventura. O próprio Ho Chi Min o revolucionário e herói do Vietnam, fez questão de se deixar fotografar numa dessas partidas de Badmington … (que fique claro que o verdadeiro Ho Chi Min já faleceu há muitos anos e seu corpo está preservado em um enorme memorial, mas vale a pena comparar a foto do original com a do sósia)

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Mas a minha aventura no Vietnam não se resumiu a conhecer Hanói. Falta falar dos verdejantes campos de arroz e da exuberante Baia de Hu Long. Vou deixar esses lugares para meu próximo Diário de Bordo, mas por enquanto, para quem quiser ver mais imagens desta surpreendente cidade, aqui estão os links para as outras fotos que tirei de Hanói:


* Gente de Hanói

* Lugares e Coisas de Hanói

 

 

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1 Response to Hanoi

  1. Claudia says:

    OLá,caí no seu blog pesquisando minha viagem pra Thailandia e Vietnam…se puder em contato comigo eu apreciaria um papinho…moro em sp e meu tel eh 11 8202 4543 ou meu email claudiadenobrega@hotmail.comobrigada beijo e elogios mil pelo seu blog…

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