Porgy and Bess

Entre as boas coisas que a região de Seattle oferece para quem mora nestas bandas, estão as oportunidades de uma fantástica vida ao ar livre, de frequentar excelentes restaurantes e participar de um ambiente cultural extraordinário.

Por aqui não faltam galerias e exposições, bibliotecas, concertos musicais de todos os gêneros, peças de teatro, o renomado Pacific Northwest Ballet e uma Opera House de tirar o fôlego, seja pela sua arquitetura moderníssima ou pelas qualidades dos músicos e cantores que se sobre saem graças a uma acústica capaz de reverberar com perfeição, trinados e falsetes para os 2900 ouvintes comodamente sentados na platéia.

Quem me conhece sabe que gosto de ópera – já falei disso aqui no Blog – e por isso não posso deixar de registrar a oportunidade que tive em assistir na semana passada a uma apresentação inesquecível de Porgy&Bess, uma obra ainda controversa para muitos.

Porgy&Bess foge dos padrões tradicionais das óperas européias, e por isso, para muitos ela mais se parece a um show da Broadway do que a um espetáculo de Bel Canto. Mas ela foi composta pelos irmãos Gershiws para ser uma ópera, tanto na sua estrutura musical e lírica, quanto na dramaticidade do tema.

Com música de George Gershwin e letras de Ira Gershwin, este dois criaram uma obra prima cuja estréia em 1935 provocou uma avalanche de críticas incendiárias e elogios apaixonados. Afinal, dois judeus de Nova York, tiveram a ousadia de criar uma ópera tendo como tema a vida em uma paupérrima comunidade de pescadores negros, protestantes e batistas,  na racista Charleston, Carolina do Sul, utilizando cantores que personificavam os estereótipos da época, em que os negros eram todos vistos como brutais e violentos, usuários de drogas, praticantes de jogos de azar, e vivendo em total promiscuidade sexual. A estória era baseada em um texto de DuBose Heyward, escrito em 1926.

As críticas ferozes vieram tanto de brancos quanto de negros. Acusações de racismo e indescência não faltaram e Porgy&Bess acabou sendo relegada ao manto do esquecimento sob a sina de ser politicamente incorreta. Raras vezes ela foi encenada até uma reestréia em Nova York, sem muito sucesso, em 1942. Dai talvez a fama de Porgy&Bess ser um musical da Broadway.

O fato é que apenas em 1976, Porgy&Bess foi acolhida por uma grande “Opera House” – Houston – e a partir daí, a fama e o impacto desta obra ficaram definitivamente estabelecidos.

As controvérsias quanto ao “libreto” e a temática foram esquecidos e como toda grande obra de arte ela permaneceu magnífica através dos anos e seu valor finalmente foi reconhecido pelos críticos da amantes da música.

Em Porgy&Bess, os Gershwins quebraram muitos dogmas. Compuseram uma ópera em Inglês, usando o linguajar inculto e cheio de erros dos negros americanos de então, que alguns estudiosos por aqui chamam de “Ebonics”. Os verbos, por exemplo, em sua maioria são cantados com uma conjugação errada o que leva a expressões similares ao nosso caipira “Nois é” ou “Eu ama Porgy (I Loves Porgy)” Os cantores são todos negros, e os únicos brancos do elenco, são policiais corruptos e a participação deste é restrita a duas ou tres falas rápidas, mas sem direito a cantar uma nota sequer. Em plena época da segregação racial, estes fatos eram uma afronta total.

Ritmos de jazz foram introduzidos na partitura, instrumentos populares como banjo foram utilizados em solos junto a orquestra e até mesmo cânticos nitidamente de inspiração judaica, como os cantados pelos Hazzandas Sinagogas, foram transformados em “Negro Spirituals”. O grande personagem desta estória, Porgy, é um enorme preto, um pobre mendigo aleijado e maltrapilho, cuja personalidade fraca e titubeante vai se transformando graças a seu amor por Bess. A composição de Gershwin exige um registro vocal de Barítono para o papel. Nada de tenores elegantes e enfeitados como pivô central do enredo, como é de costume em qualquer ópera tradicional.

E a música…. bem… ela é de tocar a alma….

As mais famosas óperas acabam quando muito consagrando e ficando conhecidas por uma única canção, seja uma ária do solista ou um coro empolgante. Assim, Turandot é conhecida por “Nessun Dorma”, Nabuco pelo coro de “Va Pensiero”, o Barbeiro de Sevilla por “Largo al Factotum”. A alegre e vibrante Carmen de Bizet conseguiu a grande proeza de popularizar uma ária solo – La Habanera – e uma marcha – El Toreador.

Mas com Porgy&Bess, Gershwin conseguiu a façanha de consagrar com o público quase todas a melodias desta ópera e canções como “Summertime”, “I got plenty o’nuttin”, “It ain’t necessarily so”, “There is a boat dat’s leavin soon for New York”, “I Loves You Porgy” ganharam interpretações inesquecíveis de artistas das mais diversas tendências, como Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Ray Charles, Frank Sinatra, Al Jarreau, Milles Davis, Bing Crosby, Billie Holliday, Sidney Poitier, George Benson, Nina Simone e a musa hippie Janis Joplin, cuja dramática interpretação de Summertime com solos da guitarra de Jimmy Hendrix no célebre Festival de Woodstockem 1969, é uma experiência única por sí só.

Porgy&Bess é uma estória simples e até certo ponto dramática e comovente, mas que sob a música de Gershwin transformou-se em uma obra prima universal e que toca profundamente a quem tem a oportunidade de ver e ouvir este espetáculo.

Os quinze minutos de aplausos que escutei no encerramento da apresentação de Porgy&Bess que assisti aqui em Seattle na semana passada, foram até pouco para expressar a admiração por esta magnífica obra de Gershwin, que ao lado de Cole Porter, foram para mim, os dois maiores compositores americanos do século XX.

No trailer abaixo estão algumas cenas da versão de Porgy and Bess apresentada aqui em Seattle. Vejam e depois me digam se tenho ou não razões para gostar das coisas que Seattle me oferece.

.

Advertisements
This entry was posted in música, Reflexões and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s