O Everest é na Bolivia


D
esde criança, imaginar-me viajando e visitando países exóticos e distantes tem sido um dos meus passatempos prediletos. Talvez inspirado pela leitura constante dos dezoito volumes do Tesouro da Juventude e pelas fotografias em preto e branco que emolduravam as páginas daqueles livros azuis e que tanto me atraiam então menino, fui criando aos poucos a relação dos lugares e das coisas que gostaria de fazer e visitar quando fosse gente grande.

E assim, ao longo dos anos, fui eliminando dessa lista imaginária, as coisas e lugares que conseguia fazer e visitar: Conhecer a Disneylândia, visitar Paris e a torre Eiffel, ver as joias da torre de Londres, subir a muralha da China, navegar pelos canais de Veneza e pelos rios de Bangkok, aprender a velejar, viajar de submarino, ir ao Cairo para ver a Esfinge e tocar o sarcófago de Quéops na Grande Pirâmide. Pouco a pouco fui realizando os sonhos de criança e agora, já adulto crescido, ficavam-me poucas coisas a fazer. Claro que entre essas coisas, haviam alguns objetivos impossíveis e é assim que deixei na caixa de sonhos abandonados, coisas como viajar até Marte, caçar leões na Africa ou chegar a pé ao Polo Norte. Mas entre os poucos sonhos que ainda estavam na relação de coisas por fazer, havia a sombra do Everest.

Durante muitos anos, alimentei o desejo de escalar o Everest, a montanha mais alta do mundo, mas com a sensatez que os anos nos trazem, esse objetivo transformou-se em algo mais simples, mas não menos complicado: Fazer a pé a trilha do Everest, de Katmandu até o CB – Campo Base, de onde partem as expedições rumo ao cume da montanha. O campo base localiza-se a uma altitude de 5.364m e são necessários quase 15 dias de caminhada entre as altas montanhas do Nepal para atingi-lo. Chegar lá, além de ser um grande feito atlético, é, sobretudo, demonstração de uma grande força de vontade para superar as dificuldades da caminhada, sobreviver ao ar rarefeito e suportar o frio intenso e as duras condições da região, seja pela falta de abrigos adequados, como também a falta de instalações sanitárias mais básicas. Por lá não há banheiros, muito menos água encanada. Vive-se por quase três semanas em condições precárias e sem o menor luxo e sem o mínimo de conforto. Qualquer hotel rústico da Europa oferece aos seus hospedes, tratamento de príncipe, quando se compara as “tea houses” e pousadas que existem no Nepal.

Fui acalentando esse sonho, meio que em banho Maria, até que em Agosto de 2011, quando comecei a planejar minhas atividades profissionais para o ano seguinte, indentifiquei uma a oportunidade perfeita para fazer essa aventura, pois eu deveria participar de um congresso em Nova Deli em Maio de 2012. Terminado o congresso,  eu poderia voar facilmente para Katmandu e partir para o meu objetivo de atingir o Campo Base do Everest. Seriam duas semanas de caminhada. Animado pela possibilidade, comecei um programa de treinamento físico e logístico, muni-me de mapas e dos materiais de escalada e camping que precisaria para a trilha, falei com vários amigos que já haviam feito o percurso e li dezenas de livros e artigos sobre o tema, a fim de estar bem preparado para marcar com tinta vermelha a palavra “FEITO” nesse item da minha lista de coisas a fazer quando fosse gente grande.

Mas cinco semanas antes do planejado início da minha viagem à Índia, recebi um e-mail informando que meus compromissos haviam sido cancelados e que minha presença por lá já não se fazia necessária. Foi um balde de água fria nos planos há tanto tempo arquitetados. No entanto, por uma enorme coincidência, logo no dia seguinte, recebi outro e-mail com um convite para participar de alguns eventos na América Latina nas mesmas datas que havia reservado para o Nepal e entre esses eventos haveria um especificamente em La Paz. Ora pensei eu, a Bolivia está no meio da Cordilheira dos Andes e é claro que o que não falta por lá são grandes montanhas. Algumas horas de pesquisa na Internet e alguns telefonemas para amigos montanhistas tiraram todas as minhas dúvidas. Embora sem o charme do campo base do Everest, bem perto de La Paz, eu poderia encontrar montanhas com mais de 5.000m de elevação, algo comparável com o meu desafio de chegar ao “Base Camp”.

Começou então a fase de preparação efetiva: Comprar os equipamentos que precisaria levar e principalmente escolher um guia na Bolivia que fosse confiável em todos os aspectos. Foi ai que eu tive a sorte de encontrar pela internet informações sobre os irmãos Mamani, reconhecidos internacionalmente como competentes guias de montanha. Alguns e-mails trocados para entrar em contato com eles e estabelecer o trajeto a ser feito. Como o pouco tempo que eu teria era uma limitante, não poderia fazer nada que demorasse mais do que dois dias e ao final, conversando via Skype com o Eduardo Mamani, achamos que seria possível tentar a escalada do pequeno Alpamayo em um dia e meio, muito embora isso seja normalmente feito em três dias. Mas o Alpamayo me permitiria definir três objetivos para uma mesma empreitada: Primeiro, escalar até 5.000m superando meu recorde de 4.500m trinta e cinco anos atrás no Equador. Segundo, tentar o cume do Tarija com 5268m e de lá, se me sentisse em forma, tentar escalar até o pico do Alpamayo chegando a uma altitude 5.425m. Eu me daria por extremamente satisfeito se conseguisse cumprir apenas o primeiro desses objetivos.

Nas semanas seguintes, intensifiquei os treinos na academia, com exercícios curtos, de baixo impacto mas alta intensidade (slow protocol). Comecei uma dieta rigorosa para perder peso e ganhar massa muscular, suprimi o vinho das refeições noturnas, para ajudar na aclimatação e tentar evitar o mal da montanha que quase sempre acomete aos que chegam a La Paz e que por lá é chamado de “soroche”. Muito embora nunca tenha tido problemas sérios com a altitude ao chegar a cidades como Quito, Bogotá ou Cuzco, La Paz fica bem mais alta e nunca se sabe como o organismo vai reagir em alta montanha.

Por outro lado, e apesar de que na Bolívia o meu objetivo estaria em uma altitude um pouco mais baixa que o Campo Base do Everest, as condições em que iria tentar o cume seriam muito mais difíceis: No Nepal leva-se quase 10 dias para chegar o CB, subindo-se um pouco a cada dia, o que permite uma boa e progressiva aclimatação à altitude. Mas na Bolívia, eu iria fazer o percurso todo, subindo do nível do mar até 5.000m em quatro dias. Eu iria tentar fazer o cume em um dia e meio, quando o normal é fazer-se em três. Eu iria fazer uma boa parte da subida a noite, no escuro, escalando em gelo e neve e levando ainda o peso adicional das botas, crampoons, cordas e piolet. Para se chegar ao CB do Everest, é necessário apenas caminhar, carregando uma mochila leve, sem as dificuldades de uma escalada técnica e sem ter que carregar tantos equipamentos. Enfim, conclui que meu plano de trocar a Bolivia pelo Everest, estava se relevando uma jornada muito mais difícil e arriscada do que imaginara a princípio.

Mas, de malas prontas, levando quase 20 quilos de roupas próprias para montanha, botas, luvas, mochilas, kit médico e outras tralhas que precisaria para a escalada, parti para uma viagem de quase vinte dias pela América Latina, cujo destino final seria La Paz e a tentativa de fazer o almejado cume.

Cheguei a La Paz numa quarta feira no fim da tarde (30/maio) sob um sol e céu azul esplendoroso. Teria encontros de trabalho na quinta feira e durante toda a manhã de sexta. Na quinta feira no fim da tarde, encontrei o meu guia, o Gregório, o mais velho dos irmãos Mamani e com ele fui alugar os equipamentos que me faltavam, a bota dupla de escalada, o piolet , saco de dormir e o “terma rest”. Na sexta-feira, depois do almoço, o Gregório passaria com a perua para me buscar no hotel, mas antes pegaria os equipamentos que eu havia alugado, além das barracas, cordas e outras coisas que precisaríamos.

Precisamente as duas da tarde de sexta-feira (1/Junho) lá estava o Gregório na recepção do hotel e de lá partimos para a região da Rinconada no Condoriri, aonde montaríamos nosso acampamento. Subimos de La Paz para El Alto (4.200m) que é o principal subúrbio da capital Boliviana e que tem uma população de cerca de 3.000.000 de pessoas, em sua maioria de etnia Ayamará, e que conservam em suas faces e vestimentas,  as características da gente do Altiplano. A região é extremamente pobre e Gregório fez questão de me levar por vielas estreitas e de terra, aonde Xamãs e bruxos queimam folhas de coca ao ar livre, para invocar os espíritos e prever o futuro de quem lhes paga alguns pesos Bolivianos.

Quase duas horas depois rodando por uma boa estrada asfaltada em pleno Altiplano, entravamos por uma estrada secundária de terra e que nos levaria em direção a cordilheira. O altímetro do meu GPS marcava 4.350m. IMG_0118Depois de mais uma hora por aquele caminho, aonde lhamas e alpacas em saltos atléticos e elegantes cruzavam a estrada a toda hora, chegamos finalmente ao fim da picada, junto a uma casa de pedra ao lado de uma pequena cachoeira, aonde uma chola (como são chamadas as nativas boliviana e que se vestem com as coloridas saias arrendodadas e chapéu de feltro) já nos esperava com um par de mulas. Carregamos as mulas com as mochilas e os equipamentos e começamos subir a trilha que nos levaria a Laguna Chiar Kota. E uma hora depois, trilha acima, chegaríamos às margens da Laguna. Eram 6:00 da tarde e o altímetro marcava 4650m

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Preparei o jantar, um delicioso risoto de aspargos e frango, feito com a hidratação de um saquinho de comida liofilizada que houvera trazido especialmente para a ocasião. Meio litro de agua fervendo é tudo o que se precisa para uma excelente refeição. Fome saciada, fomos dormir. O frio fora da barraca era intenso, mas sem vento, uns 15 graus negativos, mas dentro do meu saco de dormir a temperatura se mantinha agradável e confortável. A noite seria curta e a duas da manhã, já nos preparávamos para começar subir a trilha em direção ao glacial do Tarija. Vesti minha calça de Goretex com um “base layer” de fleece, duas meias de material sintético, camiseta térmica de base, uma segunda camiseta de gola alta e um pulôver de fleece, tudo em materiais sintéticos, próprios para montanha e que conservam bem a temperatura, mas que ao mesmo tempo permitem uma boa ventilação e evitam o acumulo de suor. Por cima, meu casaco térmico de penas de ganso. Coloquei a luva base de material sintético e por cima um “mitem” de goretex. Se o frio ficasse muito intenso, estava levando ainda um pacote de “hands warmer” aquele saquinho com produtos químicos que geram cinco horas de calor e que podem ser colocados dentro das luvas. Vesti minha bala clava térmica de polartec, capacete e coloquei o arnês e minha bota de trecking para fazer a primeira parte da trilha. Ajustei o capacete e o “head-lamp”. Na mochila de ataque, apenas um casaco sobressalente de goretex, óculos extra, kit médico para emergências, um saco plástico com alimentos super energéticos, incluindo blisters com glicose, chocolate, nozes e amêndoas, um pacote de charque e duas garrafas com um litro de água em cada uma delas. Antes de sair, uma xícara de chá quente nos deu o animo necessário para começar a caminhada em direção ao Glacial.

A minha “head lamp” ligada, garantia o mínimo de iluminação necessária para seguir os passos do Gregório. Caminhamos assim no escuro por quase quarenta e cinco minutos até que percebi que o meu GPS havia se soltado da presilha no meu cinto. Gritei na hora para o Gregório: – Perdi o GPS! Paramos e comecei lentamente a fazer o caminho de volta para tentar achar o GPS que felizmente houvera caído a alguns poucos passos de onde estávamos. Recuperei o aparelhinho e consegui prende-lo ao meu cinto dando um nó pela sua alça. Daquele jeito ele não se soltaria mais. Retomamos então a subida até chegarmos a beira do glacial. O GPS marcava 4.740m. Alí, ainda no escuro da noite, trocamos nossas botas de trilha pelas botas de escalada, colocamos os crampoons e prendemos com um moitão e um nó de oito, a corda de segurança entre o meu arnês e o do Gregório. Nesse momento a minha lanterna (head lamp) soltou-se do capacete e caiu no chão, deixando-me no escuro. Mesmo no escuro, consegui encontrar a lanterna no chão, mas ela não estava funcionando mais. Era o segundo incidente em menos de uma hora e comecei a ficar a preocupado com a sequência de problemas. Tentei várias vezes religar a lanterna, tirei as pilhas, coloquei-as de novo e nada!!! Droga, ainda estava bem escuro e a parte mais difícil da escalada estava ainda por começar e eu sem luz. O  Gregório então, pegou meu head-lamp e pacientemente repetiu algumas vezes o que eu já havia feito. Felizmente ele conseguiu religar minha pequena lanterna. Confesso que foi um alívio. Aproveitamos a pausa para tomar um energético e um pouco de água, que pasmem, estava parcialmente congelada na garrafa de quase um litro. Mesmo com todo o balanço da caminhada e mesmo sendo uma garrafa de boca ampla para evitar que a água ficasse contida em pequenos espaços, houve congelamento. Isso indicava um frio de no mínimo 20 graus negativos.

Saciada a sede e tendo feito um “pit stop” para drenar a bexiga, – e quero dizer que fazer xixi é uma das coisas mais difíceis de serem feitas nessa temperatura, pois quem esta agasalhado no bem bom e no quentinho, fica encolhidinho e não quer sair para fora de jeito nenhum naquele frio todo… – nos preparamos para enfrentar o paredão do glacial.

Piolet cravado no gelo dou o primeiro passo. Com a bota, cravo a ponta do crampoom no gelo e eis que meu pé escorrega dentro da bota… Desastre… a bota que o Gregório pegou para mim tinha vindo errada e era um ou dois números maior do que o meu pé. Ainda não sei bem o que aconteceu, mas aquela não era a bota que eu havia experimentado e possivelmente alguém confundiu dois pares semelhantes na hora de colocá-las na perua. Consequência…, eu pisava, mas não tinha estabilidade, meus pés estavam dançando dentro da bota o que me obrigava a ajustar a pisada a cada novo passo. Praticamente eu tinha que dar um passo e pisar de novo com o mesmo pé para ajustá-lo dentro da bota e poder me equilibrar na parede gelo. Era necessário um esforço duplo a cada passo. O pior é que aquilo me causaria escoriações e bolhas ao longo da subida. Mas o problema não tinha solução e eu deveria ir em frente assim mesmo se quisesse pelo menos atingir meu primeiro objetivo de chegar aos 5.000m.

E assim, passo a passo, tentando equilibrar-me a cada movimento, fui-me ajustando àquela condição de passadas desajeitadas e avançamos lentamente no escuro, pelo resto da madrugada, glacial acima. O ar rarefeito fazia-se sentir e apesar de usar a técnica de “rest step” bastava dar alguns poucos passos e era preciso parar para respirar mais fundo. O esforço que eu estava fazendo pelo fato de estar com a bota errada, estava sendo muito maior do que eu havia imaginado ser necessário. Fazer a trilha até o começo do glacial tinha sido até que muito fácil e para chegar aos 4.700m não tive que fazer um esforço extraordinário. Mas a subida pelo glacial com a bota instável estava drenando minhas forças com uma rapidez enorme. Percebi naquela hora, que se eu continuasse a fazer tal esforço eu não conseguiria chegar nem ao meu primeiro objetivo.

Parei para descansar e avaliar o problema. Os primeiros raios de luz estavam atingindo os picos mais altos, mas o glacial ainda estava as escuras. IMG_0134Conversei com o Gregório sobre a situação e decidimos mudar a forma de ataque a montanha. Em vez de fazer uma rota direta ao cume, subiríamos em zig-zag. Isso facilitaria a minha pisada, mas em compensação aumentaria em muito a distância e o tempo para chegar ao cume. Começamos então uma série de subidas curtas, menos inclinadas e mudando de direção a cada 20 ou 30 passos. Com isso consegui pisar melhor, mas essa solução estava me custando um tempo precioso. O cume do Alpamayo estava em risco, possivelmente não teria tempo para chegar até lá, mas pelo menos eu estava agora progredindo lentamente em direção ao Tarija e fazendo um esforço menor para me equilibrar. Respirei fundo, engatei a primeira e segui em frente. Meu foco agora era a marca dos 5.000m

IMG_0143E as 7:15 da manhã, com as primeiros raios de sol iluminando o glacial, exatamente quatro horas após nossa saída do acampamento, consegui atingir o meu primeiro objetivo. A cota de 5.000m. Eu poderia ter encerrado a subida por ali e já teria me dado por contente. A dor nos meus pés aumentava muito a cada passo e apesar de sentir que as bolhas estavam se formando, eu estava conseguindo suportar o mau trato que a bota errada me causava, pois tenho o costume de colocar band-aids e esparadrapos nos pés antes de fazer qualquer escalada ou trilha mais longa. Isso previne as bolhas e sem dúvida me ajudou muito a aguentar aquela situação.

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Mas apesar de todo o problema com as botas, eu me sentia contente e feliz com o sucesso da primeira etapa. Olhei para o relógio e me convenci que seria impossível chegar ao Alpamayo naquelas condições. Eu havia perdido muito tempo com os zig-zags no glacialIMG_0152 e seria quase impossível chegar ao Alpamayo dentro do horário limite de retorno, que havíamos fixado ser meio-dia. Mas o Tarija ainda estava dentro das minhas possibilidades e depois de tirarmos algumas fotos e comer chocolates, amendoas e beber muita água, respiramos fundo e continuamos nossa subida em zig-zag. Outros escaladores que vinham atrás de nos e que seguiam uma rota mais direta, em pouco tempo nos alcançaram e nos deixaram para trás. Eu estava muito lento, mas pelo menos, o caminho em zig-zag me permitia pisar de uma maneira mais confortável e assim podia seguir em frente.

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Continuávamos a subir até atingimos um pequeno platô antesIMG_0170 do cume. Aquela era a parte mais perigosa, pois apesar de ser quase plana, haviam muitas fendas e deveríamos tomar cuidado para nos mantermos na parte mais sólida. Cruzamos com segurança o platô e finalmente estava vendo na minha frente a última parede antes do cume. Pouco mais de 50 metros verticais me separavam do ponto mais alto do Tarija. O problema é que aquela era uma parede estreita e não seria possível seguir em zig-zag. Usando o piolet para ter um bom grip e pisando com cuidado com as laterais das botas, em uma passada tipo 10 para as 2 e que me lembrava Carlitos, pouco a pouco eu ganhava centímetros de altitude. Agora era preciso colocar todo o meu foco e força de vontade naqueles últimos metros.

 

E assim, passo atrás passo, as 10:23 da manhã do dia 2 de junho, após 7h e 27m de escalada, pisei no cume do Tarija, altitude 5.268m.

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Eu estava cansado, exausto, meus pés doíam, mas tinha a alma leve e um sorriso de felicidade estampado no rosto. O Gregório estava com a minha máquina e tirou algumas fotos, mas acabei me esquecendo de gravar o vídeo que eu queria fazer para deixar registrada a emoção daquele momento. Abracei o Gregório e tiramos uma foto juntos. Do alto do Tarija pude admirar a paisagem do altiplano e as magníficas montanhas do maciço do Condoriri que escoram o Tarija e o Alpamayo. Ao longe eu podia ver o Huayna Potosi com seus 6.088m e pensei… quem sabe aquele pico seja o meu próximo desafio. O Gregório e um céu azul impecável eram as únicas testemunhas do meu feito, pequeno para muitos de meus amigos montanhistas, mas enorme para quem quando criança nunca pode praticar qualquer tipo de esporte, limitado que fui por uma bronquite asmática implacável. Agora, já maduro, e apesar do meu marca-passo, havia conseguido superar todas as dificuldades da escalada, quebrar barreiras e vencer meus limites.

IMG_0190

O Alpamayo estava ali perto, um pouco mais de 200 metros acima, mas decidi despedir-me dele ali mesmo. Poderia ter ido em frente. Ainda haviam forças nas minhas pernas e na minha vontade e o traiçoeiro mal da montanha não estava me afetando, mas alcançar o cume muito tarde e depois fazer uma descida muito cansado era um risco que não valia a pena correr. Eu não estava ali para conquistar o cume. Eu estava ali para superar a mim mesmo e isso eu já havia feito. Olhei para o Alpamayo e disse “Adios amigo” e tenho quase certeza que ele piscou para mim e entendeu minha decisão.

A volta, apesar de ser em descida, exige um esforço quase que similar ao da subida, um pouco menos é verdade, mas o fato é que depois de 7 horas de escalada, o corpo já esta cansado e pequenos esforços se convertem em uma grande tortura. Chegar a base do glacial foi uma benção para os meus pés que estavam agora muito inchados, doloridos e com algumas bolhas. Tirei as botas de escalada e meus pés se alegraram com isso. Cuidei das bolhas como foi possível, com o kit de emergência que carregava na mochila e vesti uma meia mais adequada para a bota de trecking, mas como os meus pés estavam inchados, calçá-las foi um pesadelo e caminhar pela trilhas cheias de pedras soltas transformou-se em um necessário ato de masoquismo.

Embora já em altitude mais baixa, meu andar era muito lento, pois meus os pés recusavam-se a pisar a trilha. A cada cem, duzentos metros de caminhada, eu tinha que parar por exigência compulsória dos artelhos inferiores. A minha mochila de ataque, que estava quase sem nenhum peso, parecia pesar toneladas sobre os meus ombros. Demorei quase duas horas para descer uma trilha que houvera subido em uma hora e quinze minutos.

Finalmente cheguei de volta ao nosso acampamento a beira do lago Chiar Kota. Troquei a roupa de escalada por outra mais leve, pois o dia agora estava quente eIMG_0199 ensolarado e se ficasse com elas, o calor provocaria uma desidratação ainda maior da que eu ja estava sentindo, o que não seria nada bom. Desmontamos o acampamento e empacotamos todo o equipamento e ainda ficamos um tempo esperando pela chola e seus dois burrinhos que estavam a caminho para carregar nossa tralha até o carro. Bebi o resto de água que havia nas minhas garrafas e comi os últimos pedaços de charque que me restavam e uma barra de chocolate, o que naquelas circunstâncias era a comida mais divina da face da terra. Eu ainda teria que enfrentar a tortura de caminhar mais uma hora e meia pela trilha que nos levaria até o carro.

E assim, depois de quatorze horas, ao subir na perua que me levaria de volta, chegava ao fim aquela que foi a mais épica de todas as minhas aventuras até hoje e que sem dúvida, será fonte de muitas estórias para serem contadas a amigos pacientes e a netos curiosos. Restava-me ainda enfrentar três horas de estrada, para finalmente chegar ao conforto de um banho quente e a maciez de uma cama no hotel de La Paz.

No caminho de volta, olhando ao longe no horizonte, eu via a luz do sol refletindo e se apagando sobre os picos mais altos das montanhas do Condoriri. Lembrei-me então, que era hora de colocar uma marca na minha lista de criança. E como toda imaginativa criança, posso dizer, sem medo de cometer um erro de geografia, que o Everest para mim fica na Bolívia, e assim apor em vermelho a palavra “FEITO” naquele meu sonho de infância, de escalar a montanha mais alta do mundo.

.

Escalada ao Tarija

Condoriri – Bolívia
2.Junho.2012

 

Video

 

Fotos

 

Tempos e Distâncias:

image

 

De

Para

Distância

Desnível

Tempo

Campo Base

Início Glacial

3.5km

90m

1h 15m

Início Glacial

Cume Tarija

 

528m

6h 01m

Campo Base

Estrada

2.5km

140m

1h 45m

 

Mapa com os dados do GPS, incluindo altitudes:
http://www.endomondo.com/workouts/vYv0qVZdP0g

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3 Responses to O Everest é na Bolivia

  1. Barbara says:

    Parabéns, Lorenzo. Vc conseguiu! Tremo só de pensar nessa aventura! a vida vale a pena… beijos. Barbara

  2. Tarciso says:

    Minhas venturas e aventuras jamais tiveram um apelo com essa radicalidade. Acho que andar à cavalo, acompanhar meus tios em caças na mata ou pescas fluviais e navegar em alto mar foram minhas experiências mais fortes no contato com a natureza. Pesquisando o termo “marcapasso” em vista de ter implantado um há 3 semanas, acabei chegando ao seu blog. E foi um prazer me deleitar com o relato de sua aventura de menino grande! Parabéns pelo esforço e a conquista!

  3. Poeta says:

    Tarcisio;

    Obrigado pela visita ao meu blog e pelos seus comentários. Como voce pode ler neste meu post sobre a escalada na Bolivia, ter uma marca-passo não é o fim da linha. É o começo de uma nova série de ótimas e maravilhosas oportunidades que se abrem a sua frente. A melhor lição que aprendi em toda minha vida é nunca deixar de sonhar, mas também é importante nunca deixar que sonhos fiquem apenas no plano dos desejos. Como diria Fernando pessoa, navegar é preciso e o mar e as montanhas estão sempre a nossa frente esperando por nossa decisão de ir adiante.

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