L’etat c’est moi!

Que a água está intimamente ligada a vida sobre a face da terra não é novidade para ninguém. Somos seres oriundos da água, constituídos fundamentalmente dela. Nosso corpo é 65% água, nosso cérebro 70%, nosso sangue tem 83% e nossos pulmões 90%[i]

Mas além do lado que liga nossa existência como indivíduos a água, a história das revoluções sociais através dos tempos, também está inexoravelmente ligada à ela.

Especialistas em recursos sabem que a crise hídrica que afeta o Brasil não é uma exclusividade verde-amarela. Ela já era esperada há muitos anos e vai afetar de maneira global as próximas gerações e nos levará a passar por transformações sociais de grande impacto em todo o mundo.

Em 2012, durante a conferência “Water Scarcity in Africa: Issues and Challenges”[ii] organizada pelo instituto de Paleontologia Humana de Paris, estimou-se que em 2030, a população em altos níveis de stress pela falta de água na África, poderá chegar a 700 milhões de pessoas causando fluxo migratórios e conflitos sociais de consequências imprevisíveis.

Há anos, a Ásia também sofre os efeitos da escassez de água e não só pela falta de chuva, mas como bem disse o Ministro das Águas da Índia, Ramaswamy Iyer há quase 100 anos atrás “os conflitos oriundos da crise hídrica, vem não apenas da escassez, mas de uma péssima gestão dos recursos necessários a prove-la”[iii]

Na última década do século passado, o governo Chinês, que exerce forte controle sobre a população, não foi capaz de impedir revoltas e motins na província de Shandong, quando tentou modificar a forma de uso da água no Rio Amarelo[iv] e o conflito Árabe-Israelense tem em suas origens o controle estratégico das águas do Rio Jordão.

O bom uso e manejo dos recursos hídricos já é portanto um dos grandes desafios da humanidade para o século XXI e muita tecnologia, recursos e boa gestão serão necessários para equacionar e resolver a escassez e atender à necessidade vital que o ser humano tem pela água.

Ao olharmos com olho crítico a história da humanidade vamos perceber que a água, seja por excesso ou por falta, foi muitas vezes o estopim e a mola propulsora de importantes transformações sociais.

Noé e o diluvio são provavelmente a primeira prova documentada desse processo que alia a sorte da humanidade a existência do líquido universal. O diluvio bíblico tem sua provável origem, nas narrativas sobre as grandes enchentes mesopotâmicas, resultantes de cataclismos geológicos ocorridos na região do mediterrâneo, logo nos primórdios da civilização ocidental. De tal monta essas enchentes impactaram a vida e o ambiente nas regiões afetadas, que deflagraram um efeito transformador e revolucionário gigantesco. Sem ter outra forma de entender e explicar as catástrofes, as populações que por lá viviam atribuíam as catástrofes aos caprichos e desejos de seus deuses vingativos. De tal grandeza e impacto foram essas enchentes, que a sociedade humana nunca mais seria a mesma após o evento do dilúvio.

Séculos depois, Moises, cujo o nome significa “o salvado das águas”, “separou as águas do Mar Vermelho para libertar o povo judeu do jugo do Faraó do Egito”. Mais uma vez a água assume aqui um simbolismo e papel revolucionário na transformação social.

Os grandes impérios da humanidade são frutos da existência de água em seus territórios: O Nilo e o Egito, O Ganges e a India, Roma e o Tibre, o Tejo e as conquistas Ibéricas, o Tamisa e o Império Britânico.

Na Europa do século XVIII, entre 1783 e 1789 e em pleno reinado de Luiz XVI, vemos uma França, abatida por uma crise climática[v] que, oriunda da confluência de efeitos tão diversos com a corrente do “El Ninho” e a erupção do vulcão Laki na Islândia, provocaram a redução de chuvas e a consequente capacidade de produzir alimentos para uma população faminta e cansada de pagar altos tributos a uma classe dominante apenas interessada em preservar o pomposo estilo de vida da corte imperial em Versalhes. O resultado, todos sabemos: A Revolução Francesa e a guilhotina para Maria Antonieta. Mais uma vez a água, e desta vez a falta de, foi a mola propulsora da mais importante revolução de todos os tempos e que nos legou de forma definitiva os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Não quero fazer presságios desatinados ou tirar conclusões antecipadas, mas vejo que se reptem no Brasil os mesmos fatos da corte de Luis XVI. Altos impostos, classes políticas que se consideram imunes a lei, enquanto os verdadeiros produtores das riquezas do país, arcam com as contas dos privilégios. Alie-se a isto a falta de chuvas que assola o sul do Brasil e fica claro que acontecem aqui as mesmas condições que levaram o povo francês a cantar a Marselhesa enquanto marchavam para derrubar os muros da monarquia em 14 de julho de 1789.

Talvez seja hora dos políticos e dirigentes de plantão começarem a estudar e se debruçarem um pouco mais nos textos de história para deles tirar as necessárias lições, antes que Brasília vire a Bastilha e a guilhotina da história lhes cortem a cabeça.

Quem sabe afinal, não seja apenas uma coincidência que o imperador guilhotinado também se chamava Luiz e crente da máxima de seu tataravô, outro Luiz, o XIV, para quem L’etat c’est moi! (O estado sou eu)

Por isso Luiz, seja você o XIV, o XVI ou o Luiz Inácio, fique sabendo que o Estado não é teu – e que qualquer semelhança dos fatos não será mera coincidência.

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[i] https://answers.yahoo.com/question/index?qid=20080107021106AAHmwZv

[ii] http://en.wikipedia.org/wiki/Water_scarcity_in_Africa

[iii] http://www.globalwaterforum.org/2014/02/25/the-problem-with-problems-of-water-scarcity-in-south-asia/

[iv] http://www.earth-policy.org/press_room/C68/stockholm_transcript

[v] http://hubpages.com/hub/Effects-of-Climate-on-the-Origins-of-the-French-Revolution

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