O Voo do Condor.

Talvez por ter conquistado a fama de eterno viajante, uma das perguntas que mais me fazem é qual o meu lugar preferido entre os tantos que já visitei pelo mundo. E a resposta quase sempre causa frustração: Depende…

Há lugares maravilhosos pela beleza de suas paisagens, outros pelas delicias da culinária, alguns pelo charme de ruas estreitas, ou ainda aqueles que encantam pelos cheiros exóticos ou por mulheres enigmáticas. Outros ainda pela modernidade e conquistas tecnológicas estampadas em altos edifícios e gigantescas telas de LED. Não é simples escolher entre tantas coisas fantásticas e que me chamam a atenção em múltiplas dimensões.

No entanto, tenho para o Chile uma posição especial na minha lista de lugares que gosto de visitar. É claro que os vínculos familiares tem boa influência nisso, mas a verdade é que a cada nova viagem que faço a Santiago, me demonstra como esse pequeno e estreito país do Pacífico vem se transformando ao longo dos anos em uma nação de primeiro mundo sem perder suas características culturais e o charme e a elegância que herdou como colônia do Reino de Espanha.

Terras férteis, mares frios e profícuos e um clima que permeia entre o mediterrâneo, temperado e desértico dão ao Chile os ingredientes fundamentais para produzir uma gama imensa de alimentos de altíssima qualidade, frutos do mar inigualáveis e principalmente, vinhos extraordinários que hoje se posicionam entre os melhores do mundo.

Mas além da boa comida, da gente educada e cortes e dos grandes avanços tecnológicos que se observam em Santiago, resta ainda no Chile um lado campestre e de cidade pequena, que me fascina e me encanta. Sempre que posso, ao chegar a Santiago, alugo um carro para visitar pequenas cidades próximas e que ainda mantem o mesmo ritmo e tradições de tempos passados.

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Desta vez, decidi repetir uma viagem que já havia feito anos atrás e subir a Cordilheira dos Andes pelo Vale do Rio Maipo, em direção a um pequeno aglomerado de casas conhecidos como Banhos Colinas, a poucos passos da fronteira com a Argentina e a mais de 3.000m acima do nível do mar. Saindo do hotel, após 50 quilômetros de uma boa estrada o asfalto termina e dá lugar a um caminho de pedriscos e que se torna íngreme e cheio de precipícios. É ai então que a beleza imponente da cordilheira se faz presente em toda sua magnitude.

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Mas este passeio em particular iria me presentear com uma das mais belas surpresas que já tive oportunidade de observar em muitos e muitos anos. Em uma das paradas que fizemos para tirar fotos em um dos belíssimos vales escondidos entre as montanhas, pudemos ver um dos mais raros animais que se pode observar no mundo: Um magnífico Condor Andino (Vultur gryphus) veio apresentar-se planando pelas correntes de ar que se formam entre as montanhas. Este fantástico gigante dos ares, com a elegância de suas enormes asas, exibiu-se em delicadas acrobacias por quase meia hora, cruzando o vale diversas vezes.

Quase extinto na América do Norte, o Condor ainda sobrevive em algumas áreas dos Andes e habita apenas em grandes altitudes. Encontros como este que pude observar são raríssimos e a oportunidade que tivemos foi um grande presente que a natureza nos deu. Moradores da região com que pude falar a respeito também estavam perplexos por ter visto tão fantástica ave.

A beleza destas montanhas e dos vales que elas abraçam, não cabe em palavras e mesmo as fotos que tirei, não fazem jus a grandiosidade do lugar. Mas mesmo que não tivesse as fotos, nada permanecerá tão vivo em minha memória do que ter tido a oportunidade de estar no palco do Vale do Maipo, emoldurado pela cordilheira dos Andes, como espectador privilegiado do fantástico Voo do Condor.

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Bucarest, Tiririca e a Florentina

A primeira sensação que tive ao desembarcar em Bucareste, foi a mesma que tenho quando visito o Nordeste no Brasil. Talvez difícil de explicar, mas sente-se nas calçadas estropiadas e nos mendigos maltrapilhos que perambulam a noite pelo centro da cidade, que este pais passou por grandes dificuldades e que ainda convive com um alto grau de pobreza.

Por outro lado, o ferrenho regime Marxista que o ditador Ceaucescu impôs a este pais, permitiu que a cidade mantivesse intacto os belos edifícios e mansões construídos antes da chegada do comunismo. Bucareste conserva imensas avenidas arborizadas, com casarões e palacetes, lembrando-me muito do que foi a Av. Paulista no tempo dos Barões do Café. A forte economia baseada na agricultura criou classes poderosas, tanto lá como no Brasil e o resultado foi mesmo fenômeno imobiliário nos dois lados do Atlântico.

Não foi por coincidência que essas grandes avenidas de Bucareste e são Paulo, fossem criadas à semelhança das de Paris. Havia um claro proposito em se copiar tudo que fosse de origem Gaulesa, já que a França nesse período era o berço das grandes transformações cientificas e culturais que aconteciam no mundo e Paris era considerada a Cidade Luz. Para se parecer ainda mais com Paris, Bucareste até construiu sua versão da “Place d’Etoille” com direito a uma cópia quase perfeita do Arco do Triunfo. Romenos usam muito mais  “merci” para dizer obrigado do que o nativo  “vă mulţumesc” .

A queda do ditador Ceaucescu, é uma estória que os Romenos incorporaram à memória nacional e é contada por qualquer um a quem se pergunte: O todo poderoso homem que comandou como imperador romano aquele país, acabou colocando o rabo entre as pernas e tentou uma fuga espetacular de helicóptero, quando a revolução pela liberdade se aproximava do palácio aonde ele se encontrava. A fuga não deu certo. Ceaucesco foi capturado e imediatamente levado a um julgamento sumario. Ele e sua mulher foram sentenciados a morte. Um filme mostrando o últimos minutos de vida do deposto líder frente ao pelotão de fuzilamento, foi a grande sensação dos noticiários de televisão naqueles dias.

Amigos de origem Romena, que puderam finalmente visitar seus parente logo após a queda do regime, falaram-me sobre o grau de miséria e sujeira que eles haviam encontrado em Bucareste, mas hoje, depois de tantos anos, o pais parece ter saído do fundo do poço e se ainda se veem sinais de pobreza pelas ruas, vê-se também um povo bem educado e bem vestido, carros modernos, hotéis de luxo e restaurantes cheios de gente.

Durante anos, a Romênia abrigou em suas terras enormes contingentes de ciganos e é por isso que a língua falada por este nômades é chamada por eles de Romani, muito embora nada tenha em comum com o Romeno. Esta convivência secular entre estes povos influenciou claramente a cultura local e não é por acaso que as músicas e danças populares romenas contenham fortes elementos das danças ciganas.

Pude observar este fato pois fui convidado a assistir um espetáculo de música e dança em um velho casarão do centro antigo de Bucareste, num local chamado “Caru cu Bere” e foi lá que fiz uma grande descoberta. Por coincidência, no dia anterior havia lido uma nota sobre Tiririca, o palhaço-deputado (ou será deputado-palhaço???), que estava lançando um novo CD com músicas sobre Brasília. Lembrei-me imediatamente do grande sucesso que foi Florentina, a singela música circense que fez famoso o palhaço. O sucesso foi tanto que ele acabou deputado. Mas é a tal da Florentina? Tiririca nunca contou quem era a tal da moça. Mas a minha incessante curiosidade de Sherlock-Holmes levou-me a estes confins do mundo para poder finalmente e em primeira mão, revelar a meus leitores a verdadeira e única Florentina que encontrei trabalhando em um espetáculo circense nada mambembe em Bucareste. E para ninguém contestar, eis aqui as provas e não deixem de ler o nome completo da moça. Tá explicado Tiririca, por que você se apaixonou pela Florentina…

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As duas almas de Budapeste

Budapeste é uma cidade de duas almas. A começar pela geografia, que a compôs com a junção de da bela Buda com seus maravilhosos Castelos e Catedrais e da burocrática Peste que se estende pelas terras planas as margens do Danúbio, em milhares de edifícios densos e que a fazem parecer uma Gothan City sem arranha-céus.

Buda é alegre, linda, iluminada e apesar dos muitos anos de existência, ela tem a alma jovem e vibrante. Peste, por outro lado, talvez por ser uma eterna sofredora com as enchentes do Danúbio, foi reconstruída várias vezes ao longo dos séculos, é fundamentalmente o oposto. Seus prédios tem uma arquitetura densa, quase sombria, muitas vezes barroca e rococó. Maltratada, fachadas decadentes e escurecidas pelos anos de abandono que o regime comunista lhe dedicou, é impossível não se sentir o ar de opressão ao caminhar por suas ruas frias e estreitas por onde o sol quase nunca se apresenta.

Mas apesar dessa dualidade de alma e espírito, Budapeste é uma magnifica aventura para quem lhe dedicar um par de dias a perambular pelas suas avenidas e colinas, e  pelas margens do grande rio que lhe corta ao meio.

Quem isso fizer, encontrará sem dúvida as duas almas da cidade e não deixará de maravilhar-se com a grandiosidade explicita, desta que foi a capital de um dos mais poderosos impérios da história.

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Bratislava – A Porta do Leste

Se Viena, nos anos da Guerra Fria, foi a capital da espionagem, a vizinha Bratislava foi a porta de entrada para o leste Europeu. Naqueles anos, viajar os poucos quilômetros entre essas duas cidades, significava cruzar a barreira entre dois mundos distintos. Significava atravessar a Cortina de Ferro. Aventura digna de filme de James Bond, eram necessários passaportes com vistos especiais, atravessar diversas barreiras de controle e enfrentar guardas mal encarados a fazerem perguntas infindáveis sobre os motivos de tal viagem. Além disso, malas e bagagens eram revistas a exaustão, a busca de fundos falsos que pudessem esconder qualquer tipo de artefato ou documento que fosse considerado perigoso pelo regime comunista.

Naqueles tempos existia apenas a Tchecoslováquia, que com a queda da cortina de ferro, cindiu-se em dois países, ficando Praga como capital da República Tcheca e Bratislava como a capital da Eslováquia. A cisão se deu em bons termos entre as duas nações, que apesar de serem povos de origens culturais e idiomas distintos, sempre mantiveram uma profunda relação de cordialidade.

Hoje, viajar para Bratislava é coisa banal. Não há barreiras ou guardas. Não há fronteiras visíveis. Não há temor de se mostrar a verdade dos fatos. Mas ainda assim, Bratislava continua sendo a Porta de entrada para o leste Europeu. Há uma clara e visível diferença entre os dois mundos e a herança da frustrada experiência comunista se faz claramente visível na monótona arquitetura socialista dos edifícios residenciais, na decadente infraestrutura urbana e nos horrendos prédios governamentais construídos por Stalin.

Mas há uma Bratislava moderna surgindo vibrante das cinza do socialismo com suas novas construções modernas e sofisticadas e shopping centers de última geração nada deixam a desejar aos que existem em Miami ou Kuala Lumpur. E há uma também uma bela Bratislava medieval, que se manteve intocável através dos anos. Cafés, galerias de arte e bons restaurantes fazem o deleite dos turistas que constantemente caminham pelas ruas estreitas repetindo os passos de Cavaleiros Cruzados que passavam por esta porta do Leste a caminho de Jerusalém.

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Mais uma vez… Viena!

O que se pode dizer sobre Viena, que alguém já não tenho dito? Eu mesmo já falei aqui no blog, sobre essa cidade logo após tê-la visitado, exatamente há um ano atrás.

Elegante, imperial, sofisticada, berço da psicanalise, Viena é um resumo do iluminismo que explodiu na Europa ao fim do século XIX.

Passar por Viena é sempre uma experiência agradável e os pequenos detalhes que se observam na cidade e no dia a dia de seus habitantes, mostram que este é o lugar perfeito para aqueles que estão de bem com a vida. Apesar da cultura germânica, rígida, sóbria e determinada, em Viena os sorrisos abundam e o “savoir-vivre” está presente nas centenas de confeitarias e cafés aonde seus habitantes passam longas horas sentados a saborear as gulodices que tarimbados mestres-confeiteiros preparam com requinte a todas as horas do dia. A pressa não existe nos longos passeios pelos magníficos parques e jardins que enfeitam a cidade.

Dizem meus amigos locais, que em Viena um visitante nunca escuta um não como resposta, porque o Vienense fará de tudo para bem atender turistas e estrangeiros.

Nas minhas diversas passagens por esta bela e agradável cidade, saio sempre com a impressão que o tempo em Viena ficou congelado nos anos dourados e elegantes de Franz Joseph I e sua bela imperatriz Elizabeth, imortalizada nas telas pela belíssima Romy Schneider no papel de SISI. Desta vez, e aproveitando um domingo gélido deste inverno, também deixei-me levar sem pressa pelos jardins nevados do palácio imperial, como que esperando por Sisi descer as longas escadas de Schönbrunn, para acompanhar-me em uma valsa de Strauss, às margens do Danúbio azul.

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Praga

Praga é sem dúvida uma das mais belas cidades da Europa. Não tem a grandiosidade da avenidas de Paris, nem a elegância de Viena, muito menos a vibração de Londres. Mas Praga, com seus prédios centenários, suas ruas medievais, suas Igrejas e pontes admiráveis tem um charme que a distingue de todas as demais.

Berço de Kafka e Milan Kundera, Praga é uma cidade de e para intelectuais. Suas ruas estreitas, bares sombrios e pequenos cafés escondidos atrás de portas pequenas e janelas enigmáticas, transpiram o ar dos filósofos e pensadores.

Não se veem muitos sorrisos nas gentes de Praga e a pontualidade tampouco é um ponto forte. Antes preferem a introspecção ao riso fácil.

Mas a força deste povo se fez mundialmente famosa nos anos de ocupação soviética, através dos fatos e sacrifícios que aconteceram na Primavera de Praga, sobre a qual escrevi em meu blog quando por aqui passei no ano passado.

Por isso, Praga guardará eternamente em suas calçadas marcadas pelo fogo de corpos imolados, a história do seus filhos, que com altruísmo ímpar, dedicaram suas vidas para defender a causa da liberdade de uma nação.

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Varsóvia

 

Apesar de ter passado três dias na capital da Polônia, as agruras do clima não me deixaram espaço para muita coisa além de algumas reuniões de trabalho e um jantar com meus anfitriões. Três dias de um clima cinza, frio abaixo de zero e uma neve fina a cair constante e que me impediu de vagar pelas ruas das cidades que visito como sempre gosto de fazer. Mas esses três dias trancados entre as paredes do escritório, olhando a neve cobrir de branco as extensas planícies que envolvem Varsóvia, me deram tempo para refletir como devem ter sido brutais os dias da segunda Guerra Mundial.

Mas não vou falar da invasão alemã, ou do sofrimento do gueto judeu de Varsóvia. Não vou falar dos campos de concentração ou da opressão Stalinista ou da luta dos trabalhadores de Gdansk comandados por Lech Walesa, revoltados pela minguada e limitada vida que regimes comunistas impõe a seus cidadãos. Tudo isso está nos livros de história ou em páginas da Internet e quem tiver interesse pode procurar.

Com esta minha passagem por Varsóvia, prefiro lembrar de coisas boas às tristes. Lembrar-me por exemplo de Fredrik Chopin e de suas Polonaises. De Roman Polanski e de seus filmes maravilhosamente intensos e sem dúvida alguma, de Carol Wojtyla, que vestindo apenas as sandálias do pescador, foi capaz, de mudar a história da Europa.

Apenas com seu sorriso e carisma, este pequeno-gigante polonês conseguiu esfarelar o opressor império soviético sem disparar um único tiro. Bastou-lhe apenas o carisma, a personalidade contagiante, o amplo sorriso de sabedoria e seus penetrantes olhos azuis. E apenas com isto ele foi capaz de mover multidões e transformar o mundo, através do poder que o mistério da fé confere a quem nela acredita. Sem dúvida este foi o maior personagem da história do século XX 

E para quase concluir, deixo uma nota para meus colegas engenheiros: Quem não se lembra das primeiras e fantásticas calculadoras da HP, que introduziram o uso da “Notação Polonesa Reversa”? Esta simples e fantástica estrutura de codificação que simplifica e torna extremamente elegante a forma de calcular fórmulas matemáticas das mais complexas é, como bem diz nome, uma extraordinária contribuição polonesa à ciência dos números e cálculos. E por falar em cálculos, a terra ainda seria o centro do universo, não fosse Copernicus.

Mas o que também aprendi na Polônia é que lá, existe um hábito muito semelhante ao que temos no Brasil. Em terras tupiniquins, nossos desvairos políticos e sociais (e as vezes familiares) sempre acabam em pizza. E na Polonia, se não é pizza, de forma similar tudo sempre acaba em uma boa dose de Vodka…

Wyborova!!!!   Tchin-Tchin.

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